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Opinião

Professora natureza - uma nova pegada na direção do futuro

Úrsula Vidal*

Sujou, lavou tem sido um mantra diretivo de atitudes e compromissos aqui em casa há bastante tempo e vem funcionando com certa eficiência nesta comunidade familiar onde habito. Aqui há amor, mas também há doses quase diárias de puxão de orelhas. Educar é verbo transitivo direto conjugado sempre no gerúndio.

Um desses “ralhos” aconteceu essa semana quando minha filha deixou a louça do almoço na pia e me lançou o indefectível “depois eu lavo” , seguido de uma justificativa insólita: estava trancada no quarto há horas fazendo um trabalho de faculdade sobre o acidente de Chernobyl, suas causas a partir do núcleo do reator, seus efeitos radioativos no entorno da usina, o plano estratégico de contenção, incluindo ainda no texto um cenário distópico do que aconteceria se todos os 38 reatores da Rússia colapsassem. Lembrando que os EUA tem quase 100, a maioria em operação.

Fiquei atônita por 30 segundos. A menina tem 17 anos, cursa veterinária e estava discorrendo sobre um episódio com contornos trágicos de fim do mundo.

A partir dali um turbilhão me sorveu violento com a incomoda e urgente pergunta: qual Caixa de Pandora abriremos primeiro, acelerando ainda mais o risco de extinção de nossa espécie, já que milhares de outras estão em agonia desde que a revolução industrial e o plástico abriram infinitas possibilidades para saciar nossos necessidades e desejos de consumo?

No início do século passado a arte e a ciência aplicada forjaram maravilhas que foram do cubismo à teoria da relatividade. Picasso desconstruiu a forma, Einstein desarrumou nossas certezas sobre tempo e espaço. Na régua do tempo, a arte vem produzindo beleza disruptiva; a ciência, tecnologias de manutenção da vida ou de extermínio em massa.

Mas como o encanto de pinturas e esculturas pode irradiar faísca divina no encontro com teoremas matemáticos?

Neri Oxman é uma israelense de olhos profundamente verdes e cabelos profundamente negros que coordena o laboratório de bioarquitetura do MIT - Instituto Tecnológico de Massachussets, uma espécie de Disneylândia onde nasce parte das mais incríveis ideias materializadas em produtos e serviços presentes no nosso dia a dia.

Seu trabalho consiste em mimetizar o que a natureza já faz desde sempre. Entre suas missões está a tentativa de nos livrar dos plásticos já presentes até em nossa corrente sanguínea, segundo estudo recente publicado na revista Environmental International. A pesquisa realizada na Holanda em 2021 revelou que o PET (polietileno tereftalato), usado para fazer garrafas de bebidas, foi localizado em 50% dos doadores de sangue, enquanto o poliestireno – usado para embalagens, foi descoberto em 36%.

É meio apavorante.

O diagrama proposto por Neri pode ser a porta do armário de Nárnia por onde atravessaremos e nos reconectaremos com nossa origem e seus modelos criativos, dispondo arte, ciência, engenharia e design num modo de interação que produzirá saídas para nossa crise civilizatória. “A ciência converte informações em conhecimento, a engenharia converte conhecimento em utilidade, o design converte utilidade em comportamento cultural e contexto. E a arte pega o comportamento cultural e questiona nossa percepção do mundo.”

Ela propõe a possibilidade do momento mágico em que uma mudança em nossa percepção afetará a forma como capturamos os dados disponíveis na natureza. E um novo raciocínio galvanizará nossos métodos de produzir tecnologia e ciência, a partir deste click.

É bom que seja logo, e que se espraie rápida e planetariamente.

Quem diria que poderíamos despertar pela beleza.

Que o extraordinário design da vida poderá conduzir nossa espécie a redesenhar sua pegada na direção do futuro.

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* Úrsula Vidal é jornalista, ex-presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Cultura e ex-secretária de cultura do Pará.